Flutter Auricular (Típico e Atípico)

Abordagem

  1. Urgente — Encaminhar para SU se:
    1. Instabilidade hemodinâmica (síncope, hipotensão, EAP, choque cardiogénico, confusão mental);
    2. Agravamento de IC ou IC de novo;
    3. Suspeita de fator precipitante grave (ex. DCI aguda, TEP, tirotoxicose, pericardite, sepsis);
    4. Flutter auricular de novo há <48 h;
    5. FC mantida >120 bpm;
    6. Muito sintomático (escala mEHRA III–IV);
    7. História de pré-excitação (ex. WPW) — fármacos bloqueadores do nó AV contraindicados;
    8. Flutter persistente/permanente com distúrbio de condução AV:
      • Condução ≥3:1 sem fármacos cronotrópicos negativos (FC <100 bpm) — sugere bloqueio AV de alto grau;
      • Bradicardia sintomática, sem fármacos cronotrópicos negativos;
      • Pausas >3 s sintomáticas, sem fármacos cronotrópicos negativos;
      • Pausas >5 s em vigília, mesmo assintomáticas.

  1. Sem critérios de urgência — Referenciar e gerir
    1. Todos os doentes com flutter auricular devem ser referenciados para Consulta de Cardiologia. A ablação é o tratamento de 1.ª linha no flutter típico (taxa de sucesso >90%). Alertar o utente para recorrer ao SU se agravamento de sintomas enquanto aguarda consulta.
    2. Pedir MCDT. Procurar e tratar causas e comorbilidades. Cardiopatia estrutural é frequente; ~40% dos doentes desenvolvem FA em 3 anos.
    3. Anticoagulação — calcular CHA2DS2-VASc e HAS-BLED:
      CHA2DS2-VASc Conduta
      = 0 / ≤ 1 Não anticoagular. Reavaliar em 4–6 meses.
      = 1 / = 2 Se o ponto decorre de idade 65–74 ou IC: anticoagular. Se decorre de outros fatores: individualizar conforme carga arrítmica e risco hemorrágico.
      ≥ 2 / ≥ 3 Anticoagular, se não houver contraindicações absolutas:

      ⚠️ HAS-BLED alto → reavaliações frequentes (ex. consultas mensais); não é contraindicação para anticoagulação.

    4. Controlo de frequência — na ausência de contraindicações:
      • β-Bloq ou BCC não dihidropiridínico (diltiazem, verapamil).
      • O controlo de frequência no flutter é mais difícil do que na FA; pode exigir doses mais altas ou terapêutica combinada.

  1. Vigilância
    1. Sobreposição flutter–FA: até 40% desenvolvem FA em 3 anos; após ablação de flutter, até 82% desenvolve FA a longo prazo. Reavaliação clínica e com ECG periódica obrigatória.
    2. Doentes assintomáticos pós-ablação: ECG e/ou Holter a cada 12 meses.
    3. Manter anticoagulação conforme CHA2DS2-VASc, mesmo após ablação bem-sucedida e em ritmo sinusal, se o score o indicar.

1. Josep B, et al. 2019 ESC Guidelines for the management of patients with supraventricular tachycardia. Eur Heart J 2020; 41, 655-720
2. Phang R, Prutkin JM. Atrial flutter: Overview of diagnosis and management. UpToDate. Feb 03, 2025.
3. Prutkin JM. Atrial flutter: Maintenance of sinus rhythm. UpToDate. Sep 04, 2025.
4. Prutkin JM. Control of ventricular rate in atrial flutter. UpToDate. Nov 04, 2024.
5. Manning WJ, Prutkin JM. Atrial flutter: Risk of thromboembolism and role of anticoagulation. UpToDate. Nov 14, 2024.

Figura – Flutter Auricular

O flutter auricular pode ser típico (o mais frequente) – circuito de reentrada passa entre a veia cava inferior e o anel da válvula tricúspide, uma zona denominada istmo cavo-tricúspide – ou atípico – o circuito de reentrada não passa no istmo cavo-tricúspide.

Os flutters típicos podem ocorrer contra o sentido dos ponteiros do relógio (mais frequente):

  1. FC > 100bpm, geralmente perto dos 150bpm:
    1. Frequência das ondas de flutter auriculares tipicamente entre 250 e 330bpm;
    2. Característicamente a condução é de 2:1 (isto é, 2 ondas flutter para 1 QRS). Caso a condução seja >2:1 (ex. 3:1, 4:1), na ausência de fármacos que atrasem a condução AV, deve ser considerada síndrome de Taqui-Bradi (ver doença sino-auricular); e
  2. Ondas flutter, em “dentes de serra”:
    1. Características (duração, amplitude, morfologia) semelhantes; e
    2. Predominantemente negativas nas derivações DII, DIII, aVF; e
    3. Positivas em V1; e
    4. Sem intervalos isoeléctricos entre as ondas flutter.

Ou no sentido dos ponteiros do relógio:

  1. FC > 100bpm, geralmente perto dos 150bpm;
    1. Frequência das ondas de flutter auriculares tipicamente entre 250 e 330bpm;
    2. Característicamente a condução é de 2:1 (isto é, 2 ondas flutter para 1 QRS). Caso a condução seja >2:1 (ex. 3:1, 4:1), na ausência de fármacos que atrasem a condução AV, deve ser considerada síndrome de Taqui-Bradi (ver doença sino-auricular); e
  2. Ondas flutter, em “dentes de serra”:
    1. Positivas nas derivações DII, DIII, aVF e
    2. Negativas em V1; e
    3. Sem intervalos isoeléctricos entre as ondas flutter.

Os flutters auriculares atípicos (mais raros), embora possam ser idiopáticos, ocorrem geralmente em situações pós cirurgia/ablação cardíaca, miocardiopatias ou cardiopatias congénitas, e não dependem do istmo cavo-tricúspide. Nesses casos, o circuito de reentrada pode-se localizar em qualquer outro local, na aurícula direita ou esquerda. As suas características são:

  1. Ondas flutter de morfologia, duração e amplitude regulares mas, ao contrário dos flutter típicos, pode haver um intervalo isoeléctrico entre elas; e
  2. Não há uma morfologia única das ondas flutter atípicas, já que a cicatriz do miocárdio que está frequentemente na sua origem pode ter localizações diferentes nas diferentes pessoas; e
  3. FC geralmente mais baixas, podendo nem haver taquicardia.

As mesmas causas da FA podem causar/precipitar um flutter auricular. Abaixo estão listados alguns dos factores precipitantes/etiologias mais frequentes.

  1. Cardiopatia estrutural
    1. Alterações no gene PITX2
    2. Fibrose do tecido cardíaco
    3. Annulus mitral
    4. Dilatação da aurícula esquerda
    5. Compromisso da FEVE
  2. Após cirurgia/ablação cardíaca
  3. Após fármacos antiarrítmicos para supressão de FA
  4. EAM ou DCI (raro)
  5. Tireotoxicose
  6. Obesidade
  7. SAOS
  8. Pericardite
  9. Doença pulmonar
  10. Disfunção Sino-Auricular
  1. Estudo Padrão
  2. ECG
  3. HOLTER
  4. Ecocardiograma
  5. Outros exames, de acordo com suspeita da causa subjacente