Bloqueio Aurículo-Ventricular de 1º Grau

Abordagem

  1. Procurar ativamente uma causa. O tratamento do BAV 1.º grau centra-se na reversão de causas modificáveis. Boa anamnese: história pessoal, familiar, viagens, fármacos, exame físico e MCDT.
  2. Urgente — Encaminhar para SU se:
    1. Instabilidade hemodinâmica (síncope, hipotensão, agravamento de IC, cansaço marcado) — geralmente com intervalo PR >600 ms.
    2. QRS largo (BRE ou BRD) com clínica de doença cardíaca descompensada (síncope cardíaca, agravamento de IC, angor, cansaço marcado).
  3. Prioritário — Consulta de Cardiologia se:
    1. Doenças genéticas/neuromusculares (ex. distrofia muscular, síndrome Kearns-Sayre) — mesmo se assintomáticos.
    2. Sintomas ligeiros correlacionados com o BAV (palpitações, cansaço ligeiro) com PR >300 ms. Pedir MCDT e reverter causas modificáveis. Reavaliar em 4–6 semanas:
      1. Em caso de reversão do BAV: não referenciar e manter vigilância.
      2. Sem reversão, com sintomas mantidos e PR >300 ms sem causa reversível: referenciar.
    3. QRS largo (BRE/BRD) com sintomas ligeiros (tonturas, palpitações, pré-síncope) e suspeita de relação com alterações no ECG/Holter.
  4. Vigilância e Tranquilizar — nos restantes casos (maioria; assintomáticos):
    1. BAV 1.º grau isolado e assintomático não é grave — achado benigno. Tranquilizar o utente.
    2. Suspeita de SAOS com PR >300 ms durante o sono: pedir polissonografia.
    3. Sem correlação sintomas–BAV e sem critérios anteriores: vigilância a cada 12 meses com ECG. Se clinicamente justificado (ex. cansaço de novo), pedir Holter e ecocardiograma. Controlo de FRCV. Alertar o doente para procurar ajuda se desenvolver sintomas (síncope, palpitações, sintomas de IC).
    4. QRS largo (BRE/BRD) e sem sintomas: confere maior risco de progressão para BAV completo. Exige vigilância mais frequente. Ensinar sinais de alarme (síncope, agravamento de IC, palpitações, cansaço marcado).

Fontes:

1. Michael G, et al. 2021 ESC Guidelines on cardiac pacing and cardiac resynchronization therapy. Eur Heart J 2021; 42, 3427-3520
2. Jameson J, et al. Harrison’s Principles of Internal Medicine. McGraw-Hill Education; 20th Ed. Pg 1728
3. Kusumoto F, et al. 2018 ACC/AHA/HRS Guideline on the Evaluation and Management of Patients With Bradycardia and Cardiac Conduction Delay. Circulation, 2019; 140:e382–e482

Figura – BAV 1º Grau

No BAV de 1º grau não há um verdadeiro bloqueio mas sim um atraso de condução, pois todos os impulsos são conduzidos das aurículas para os ventrículos.

  1. Condução 1:1 (ou seja, todas as ondas P são seguidas de QRS), e
  2. Intervalo PR >200ms, em repouso.
  3. Num ECG de rotina, um limiar >300ms seg parece ser mais sensível e específico.
  1. Fisiológico
    1. Crianças
    2. Adultos jovens
    3. Durante o sono
    4. Atletas
  2. Degenerativo/idiopático
  3. Autonómicas
  4. Hipersensibilidade do seio carotídeo
  5. Estimulação vaso-vagal (cardio-inibitória)
  6. Tosse, defecação, micção, vómitos
  7. DCI (aguda ou crónica)
  8. Cardiomiopatia
    1. HVE
    2. Hipertensiva
    3. Dilatada
    4. Congénita
  9. Doenças infiltrativas
    1. Sarcoidose
    2. Amiloidose
    3. Hemocromatose
    4. Linfoma
  10. Doenças vasculares do colagénio
    1. Artrite reumatóide
    2. LES
    3. Esclerodermia
    4. Doenças do armazenamento
  11. Alterações electrolíticas
    1. HipoK
    2. HiperK
    3. HiperCa2+
    4. HiperMg2+
  12. Alterações metabólicas/ácido-base
    1. Hipotiroidismo
    2. Anorexia
    3. Hipóxia
    4. Acidose
  13. Trauma/pós-cirurgia cardíaca
  14. Anorexia
  15. Hipotermia
  16. Alterações neurológicas
    1. Aumento da pressão intracraniana
    2. Tumores SNC
    3. Epilepsia do lobo temporal
    4. SAOS
  17. Doenças genéticas e neuromusculares
    1. Múltiplas alterações hereditárias
      1. SSS2, AD, OMIM #163800 (15q24-25)
      2. Disfunção Sino-Auricular com miopia (OMIM #182190)
      3. Etc.
    2. Distrofia miotónica (tipo 1 e tipo 2)
    3. Distrofia muscular ligada ao cromossoma X
    4. Síndrome Kearns-Sayre
    5. Ataxia de Friedreich
  18. Infecciosas
    1. Endocardite
    2. Pericardite
    3. Miocardite
    4. Doença de Chagas
    5. Doença de Lyme
    6. Difteria
    7. Toxoplasmose
  19. Fármacos/substâncias/iatrogenia
    1. Antiarrítmicos
      1. Classe IA  Quinidina, disopiramida
      2. Classe IC  Propafenona, fleicanida
      3. Classe II  β-bloq
      4. Classe III  Sotalol, amiodarona, dronedarona
      5. Classe IV  Diltiazem, verapamil
      6. Outros – Digoxina, adenosina, ivabradina
    2. Anti-hipertensores (clonidina, reserpina, metilopa)
      1. BCC não dihidropiridínicos
      2. Reserpina
      3. β-Bloq
    3. Psicofármacos
      1. Donepezilo
      2. Carbamazepina
      3. Anti-psicóticos (lítio, fenotiazinas, amitriptilina)
    4. Agentes quimioterápicos (talidomida, lenalidomida, paclitaxel, etc.)
    5. Opióides
    6. Ticagrelor
    7. Antagonistas H2
    8. Cimetidina
    9. Pentamidina
    10. Radioterapia
    11. Pós-cirurgia cardíaca/ablação
    12. Intoxicação por Organofosfatos
  1. Estudo Padrão
  2. ECG
  3. HOLTER
  4. Ecocardiograma se suspeita clínica de doença cardíaca
  5. Prova de esforço, se sintomas durante ou após exercício
  6. Polissonografia se suspeita de SAOS
  7. Outros, de acordo com suspeita clínica.