Infradesnivelamento do Segmento ST

Abordagem

O infradesnivelamento do segmento ST exige uma distinção rápida entre isquemia miocárdica aguda, efeito farmacológico e resposta fisiológica. Para orientar o médico não cardiologista, organizámos os diagnósticos diferenciais com critérios ECG objectivos e um semáforo de actuação (🔴 SU, 🟠 Cardiologia, 🟡 Vigilância, 🟢 Tranquilizar), baseado nas guidelines ESC 2023 (SCA), AHA/ACC/HRS (Rautaharju 2009) e Hanna & Glancy (CCJM 2011).

🔴 Regra de Ouro: Clínica sugestiva de DCI aguda ou dúvida diagnóstica em doente com factores de risco CV → SU, independentemente do padrão ECG. Para a lista completa de causas, ver causas.

  Padrão ECG Acção
🔴 Infra horizontal/descendente ≥ 0,5 mm em ≥ 2 derivações contíguas (na ausência de bloqueio de ramo, hipertrofia ventricular ou pré-excitação (ex. WPW)) SU
🔴 Padrão De Winter — Declive ascendente do ST com infra do ponto J ≥ 1 mm em V1–V6, seguido de onda T alta, positiva e simétrica (equivalente de STEMI por oclusão da DA) Via Verde Coronária
🔴 Infra máximo em V1–V3 — possível enfarte posterior (se supra ≥ 0,5 mm em V7–V9 → confirma; sensibilidade 60–80%, dependendo do critério) SU — pedir V7–V9
🔴 Infra difuso (≥ 8 derivações) + supra em aVR/V1 — com dor isquémica: VP ~75% para tronco comum ou 3 vasos. Sem dor activa: se padrão de novo → alteração dinâmica de alto risco SU
🔴 Suspeita clínica de TEP — infra V1–V4 e DIII ± inversão T de V1–V4 ± desvio direito do eixo ± HVD ± taquicardia sinusal ± S1Q3T3 SU
🔴 HipoK grave (K⁺ < 2,7 mmol/L) com alterações ECG — infra ST e/ou QT longo e/ou onda T achatada/invertida e/ou onda U proeminente e/ou fusão T-U. Risco de torsades de pointes SU — correcção EV monitorizada
🔴 Toxicidade digitálica — bradicardia, bloqueio AV ou arritmia ventricular num doente sob digoxina (≠ efeito digitálico benigno) SU
🔴 Infra em contexto de HVE, HVD, BRE, BRD ou WPW com sinais sugestivos de isquemia sobreimposta — consultar critérios nas respectivas entradas: HVE · HVD · BRE · BRD · WPW SU
🔴 Infra recíproco (imagem em espelho de STEMI) — Infradesnivelamento em derivações opostas a um território com supradesnivelamento de ST (ex: infra em I, aVL durante STEMI inferior; infra em II, III, aVF durante STEMI anterior). Confirmar sempre se existe supra noutras derivações SU — Via Verde Coronária
🟠 Infra de novo, horizontal/descendente (i.e., não fisiológico), sem causa secundária óbvia (sem BRE, HVE, digoxina), doente estável e sem dor Consulta de Cardiologia
🟡 Efeito digitálico (≠ toxicidade) — infra do ST com concavidade superior (“Bigodes de Salvador Dalí”); ± onda T com baixa voltagem; ± encurtamento do QT; ± aumento do intervalo PR; ± ondas U proeminentes. Ocorre com níveis terapêuticos de digoxina. Vigiar se o padrão ECG se alterar: se surgir bradicardia, bloqueio AV de novo ou arritmia ventricular → reclassificar como 🔴 toxicidade Vigilância — vigiar alterações de padrão
🟡 Infra conhecido e estável em contexto de HVE, HVD, BRE, BRD ou WPW — sem sinais de isquemia sobreimposta. Consultar critérios detalhados nas respectivas entradas: HVE · HVD · BRE · BRD · WPW Vigilância — repetir ECG se sintomas novos
🟡 Pós-TEP — as alterações ECG devem regredir com a anticoagulação Reavaliar se persistirem (eco para disfunção VD)
🟡 HipoK ligeira/moderada sem alterações ECG significativas, ou após correcção Vigilância — repetir ECG e ionograma
🟢 Fisiológico — Infra ascendente, retorno à linha de base em ≤ 80 ms após o ponto J, sem bloqueio de ramo, pré-excitação nem hipertrofia ventricular. Comum na taquicardia sinusal e durante a prova de esforço (relacionado com a repolarização auricular exagerada) Tranquilizar
📋 Prova de Esforço
Mesmos critérios electrocardiográficos. Prova positiva = infra horizontal ou descendente ≥ 1 mm (sensibilidade ~60%, especificidade ~90%). Se sintomas sugestivos de angina instável (dor em repouso, crescendo ou de novo) → aplica-se a Regra de Ouro: SU.
🟢 Prova negativa — Carga adequada atingida (estadio 4 de Bruce ou FC ≥ 85% da FC máxima prevista para a idade*) sem infra horizontal/descendente Tranquilizar — probabilidade de DCI baixa em doentes sem alto risco CV
🟠 Prova positiva a cargas baixas — Infra horizontal/descendente ≥ 1 mm antes de atingir carga adequada (antes do estadio 4 de Bruce ou com FC < 85% da FC máxima prevista*). O infradesnivelamento nestas condições é bastante sensível e específico para DCI Consulta de Cardiologia — ponderar estudo de imagem (ex. cintigrafia de esforço, ecocardiograma de esforço, etc)
🟠 Infra na recuperação — Infradesnivelamento de novo após a prova é sugestivo de DCI, mesmo em indivíduos aparentemente saudáveis Consulta de Cardiologia — ponderar estudo de imagem (ex. cintigrafia de esforço, ecocardiograma de esforço, etc)
* FC máxima prevista para a idade = 220 − idade em anos. Exemplo: doente de 60 anos → FC máx ≈ 160 bpm → 85% = 136 bpm.
Nota: a prova de esforço com ECG não é fiável para diagnóstico de DCI em doentes com infra ST ≥ 1 mm no ECG basal, BRE ou sob digitálicos — ponderar estudo de imagem (ESC 2024, Classe III).

Referências

1. Byrne RA, Rossello X, Coughlan JJ, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of acute coronary syndromes. Eur Heart J. 2023;44(38):3720–3826.
2. Collet JP, Thiele H, Barbato E, et al. 2020 ESC Guidelines for the management of acute coronary syndromes in patients presenting without persistent ST-segment elevation. Eur Heart J. 2021;42(14):1289–1367.
3. Thygesen K, Alpert JS, Jaffe AS, et al. Fourth Universal Definition of Myocardial Infarction (2018). Circulation. 2018;138(20):e618–e651.
4. Rautaharju PM, Surawicz B, Gettes LS, et al. AHA/ACCF/HRS Recommendations for the Standardization and Interpretation of the Electrocardiogram: Part IV. Circulation. 2009;119(10):e241–e250.
5. Hanna EB, Glancy DL. ST-segment depression and T-wave inversion: classification, differential diagnosis, and caveats. Cleve Clin J Med. 2011;78(6):404–414.
6. de Winter RJ, Verouden NJW, Wellens HJJ, Wilde AAM. A new ECG sign of proximal LAD occlusion. N Engl J Med. 2008;359(19):2071–2073.
7. Pollehn T, Brady WJ, Perron AD, Morris F. Electrocardiographic ST-segment depression. Emerg Med J. 2002;19(2):129–135.
8. Vrints C, Andreotti F, Koskinas KC, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of chronic coronary syndromes. Eur Heart J. 2024;45(36):3415–3537.

O infradesnivelamento do segmento ST é o desvio do segmento ST abaixo da linha de base (segmento PR), medido no ponto J. A morfologia (ascendente, horizontal ou descendente) e o contexto clínico determinam a gravidade e a actuação — ver abordagem.

  1. O diagnóstico diferencial de infradesnivelamento do segmento ST deve ser feito o mais rápido possível, tendo sempre em conta a história clínica. Ver abordagem.
  2. Os supra e infradesnivelamentos do segmento ST devem ser avaliados pela posição do Ponto J, tendo como referência a linha de base do intervalo PR.
  1. DCI aguda ou crónica
  2. Fisiológico
    1. Durante o exercício
    2. Hiperventilação
    3. Padrão juvenil persistente
  3. HipoK
  4. Cardiomiopatia de Takotsubo
  5. Pericardite aguda
  6. Digoxina/intoxicação digitálicos
  7. Taquicardia supraventricular
  8. HVE
  9. HVD
  10. BRE
  11. BRD
  12. WPW
  13. Ritmo de pacing
  1. Ver abordagem