Extrassístoles Ventriculares

Abordagem

Quando referenciar, vigiar ou tranquilizar. Decisão estratificada por gravidade:

NOTA: Bigeminismo, trigeminismo, quadrigeminismo, etc. não têm significado prognóstico. Couplets (2 EV consecutivas) — avaliar como qualquer EV. Triplets (≥3 EV consecutivas) — são por definição TVNS, aplicar os critérios de TVNS.
  1. Urgente — Encaminhar para SU
    1. FEVE comprometida de novo (reduzida ou ligeiramente reduzida), sobretudo se outras características de alto risco associadas;
    2. TVS (≥30 s ou necessita intervenção para terminar);
    3. TVNS monomórfica rápida (FC >200 bpm);
    4. Fenómeno R em T que desencadeia taquiarritmia ventricular: EV que interrompe a onda T seguida de TVNS, TVS ou fibrilhação ventricular;
    5. Síncope, pré-síncope ou dor torácica anginosa correlacionadas com EV/taquicardia ventricular no Holter/ECG;
    6. Suspeita de DCI aguda — activar via verde coronária.
  2. Prioritário — Consulta de Cardiologia

    Excluir causas reversíveis. Pedir MCDT. Iniciar β-Bloq ou BCC não DHP enquanto aguarda. Encaminhar se ≥1 critério:

    A. Cardiopatia conhecida ou suspeita

    • Carga ≥10%/dia e cardiopatia não explicada pela restante história clínica;
    • Cardiopatia estrutural/arrítmica significativa, independentemente do número de EV: valvulopatia moderada a grave; prolapso da válvula mitral (mesmo se ligeiro); cardiomiopatia hipertrófica; DCI; doença arritmogénica (ex. Brugada, QT longo, cardiopatia arritmogénica do ventrículo direito); doença sistémica com atingimento cardíaco (ex. sarcoidose, amiloidose);
    B. Achados no Holter/ECG de alto risco

    • TVNS polimórfica assintomática — sugere doença eléctrica primária;
    • TVNS bidirecional (o QRS em II, III e aVF alterna entre positivo e negativo batimento a batimento) — padrão raro, associado a doenças genéticas graves;
    • TVNS monomórfica de morfologia atípica, ou idade avançada — RMN cardíaca recomendada mesmo se ecocardiograma normal;
    • Fenómeno R em T isolado (EV que interrompe a onda T, sem desencadear taquicardia ventricular) — mesmo que seja só 1 em 24h; exige exclusão de canalopatia;
    • EV polimórficas/multifocais frequentes (carga >1.000 EV/24h e ≥10% das EV com morfologia diferente da dominante), associadas a ≥1 dos seguintes: história familiar de morte súbita ou cardiomiopatia; síncope não explicada; morfologia atípica; idade avançada — ponderar RMN cardíaca;
    C. Achados na prova de esforço

    • Agravamento com exercício, incluindo EV que persistem ou surgem na fase de recuperação:
      • Suspeitar de DCI se FRCV — estatina de alta intensidade e aspirina; enviar ao SU se angina instável;
      • Suspeitar de doença genética se idade jovem sem FRCV;
    D. Falência terapêutica ou preferência do utente

  3. Vigilância

    Sem cardiopatia estrutural conhecida e sem critérios dos pontos 1 e 2, mas com ≥1 das seguintes (associadas a cardiopatia oculta e risco de morte súbita). Holter, ECG e ecocardiograma anuais. Controlar FRCV. Se marcadas e EV frequentes, ponderar Consulta de Cardiologia:

    1. História familiar de morte súbita, morte CV em idade jovem, ou cardiomiopatia hereditária; ou
    2. Síncope de causa cardíaca não explicada pela restante história clínica; ou
    3. EV polimórficas que não cumpram os critérios do ponto anterior; ou
    4. EV com QRS ≥130 ms; ou
    5. EV interpoladas (não alteram a duração dos intervalos R-R); ou
    6. Morfologia não típica (ver definição); ou
    7. Idade avançada, sobretudo com outras características de alto risco; ou
    8. TVNS monomórfica com morfologia típica, ECG basal e ecocardiograma normais, sem história familiar — completar workup (MCDT; considerar RMN cardíaca se qualquer dúvida).
  4. Tranquilizador

    Só se aplica a utentes sem cardiopatia significativa documentada, com EV típicas e sem alto risco. Prognóstico benigno. Achado muito frequente na população geral. Controlar FRCV.

    1. Se sintomático:
      1. Iniciar β-Bloq ou BCC não DHP. Repetir Holter em 1 mês, titular dose até ausência de sintomas ou contraindicações. Encaminhar para Cardiologia se refractário; ou
      2. Encaminhar se preferir ablação.
    2. Se assintomático, mas carga ≥10%/dia:
      1. Iniciar β-Bloq ou BCC não DHP. Repetir Holter em 1 mês, titular dose até carga <10%/dia ou contraindicações. Encaminhar para Cardiologia se carga se mantiver ≥10%/dia, pelo risco de cardiomiopatia induzida por EV; ou
      2. Encaminhar se preferir ablação.
    3. Em todos, repetir MCDT:
      1. Se sinais/sintomas de novo; ou
      2. ≥2×/ano se carga ≥10%/dia, pelo risco de cardiomiopatia induzida por EV.

Fontes:

  1. Zeppenfeld K, et al. 2022 ESC Guidelines for the management of patients with ventricular arrhythmias and the prevention of sudden cardiac death. Eur Heart J 2022; 00, 1–130
  2. Prutkin J, et al. ECG tutorial: Ventricular arrhythmias. UpToDate, última actualização em Out 2022
  3. Marcus G, et al. Evaluation and Management of Premature Ventricular Complexes. Circulation 2020; 141(17):1404-1418
  4. Manolis A. Premature ventricular complexes: Clinical presentation and evaluation. UpToDate, última actualização em Jan 2026
  5. Manolis A. Premature ventricular complexes: Treatment and prognosis. UpToDate, última actualização em Fev 2026
  6. Jameson J, et al. Harrison’s Principles of Internal Medicine. McGraw-Hill Education; 20th Ed. Pg 1755 – 1757
  7. Gorenek B, et al. Management of asymptomatic arrhythmias: a European Heart Rhythm Association (EHRA) consensus document. EP Europace 2018; Vol 20, 6, pg 895–896
  8. Al-Khatib, et al. 2017 AHA/ACC/HRS Guideline for Management of Patients With Ventricular Arrhythmias and the Prevention of Sudden Cardiac Death. Circulation 2018; 138:e272–e391
  9. Corrado D, et al. How to evaluate premature ventricular beats in the athlete. Br J Sports Med 2020; 54(19): 1142–1148
  10. Brunetti G, et al. Role of Cardiac Magnetic Resonance Imaging in the Evaluation of Athletes with Premature Ventricular Beats. J Clin Med 2022; 11(2): 426
  11. Muser D, et al. Risk Stratification of Patients With Apparently Idiopathic Premature Ventricular Contractions. JACC Clin Electrophysiol 2020; 6(6):722-735
  12. Enriquez A, Hanson M, Garcia F. To Beat or Not to Beat: When and How to Treat Premature Ventricular Complexes. Annu Rev Med 2026; 77:17
  13. Kılıç ME, Arayici ME, Yılancioglu RY, et al. Frequent premature ventricular complexes and risk of atrial fibrillation, heart failure, stroke and mortality: a systematic review and meta-analysis. Heart 2025; 111:1175–1183

As EV ocorrem quando o miocárdio ventricular gera um impulso elétrico independente, havendo uma contração ventricular prematura, isto é, antes da onda P sinusal. Geralmente, as características na tira de ECG são:

  1. QRS que ocorrem esporadicamente, não são conduzidos por onda P, e apresentam as seguintes características
    1. > 120ms, e
    2. Se houver mais do que um foco, podem ter diferentes morfologias (polimórficas), e
    3. Onda T no sentido inverso ao do QRS, e
    4. Frequentemente, a seguir à EV há uma pausa.
  2. Morfologia típica vs. atípica — para classificar, olhar para V1 e depois para DII, DIII e aVF:
    1. Típica (geralmente benigna) — a EV é típica em dois padrões:
      • Padrão 1: QRS predominantemente negativo em V1 (morfologia de BRE) e QRS predominantemente positivo em DII, DIII e aVF;
      • Padrão 2: padrão rSR’ em V1 (o QRS começa com uma pequena onda positiva, desce brevemente abaixo da linha de base e sobe para uma segunda onda positiva mais alta; morfologia de BRD típico) com QRS estreito (<130 ms).
    2. Atípica (pode indicar doença cardíaca — ver Abordagem) — quando não encaixa em nenhum dos dois padrões acima. Exemplos frequentes:
      • QRS positivo em V1 que não corresponde ao Padrão 2 (sem as duas ondas positivas, ou com QRS ≥130 ms);
      • QRS negativo em V1 mas também negativo em DII, DIII ou aVF (eixo não inferior).
  3. As extrassístoles podem ocorrer com padrão de bigeminismo se houver uma extrassístole a seguir a cada complexo QRS normal, com padrão de trigeminismo se houver uma extrassístole a seguir a cada 2 complexos QRS normais. Ou podem ocorrer em couplet, isto é, duas extrassístoles seguidas, ou triplet, 3 extrassístoles seguidas.
  4. Se ≥ 3 EV seguidas, que cedem espontaneamente em <30 s, estamos na presença de uma Taquicardia Ventricular Não Sustentada.

NOTAS:

  1. Se o doente tiver um bloqueio de ramo prévio, o QRS da EV pode ser mais estreito do que o habitual (<120 ms), porque o impulso ectópico pode contornar a zona de bloqueio.
  2. Em doentes com história de DCI, a onda T da EV pode não estar invertida em relação ao QRS (pseudonormalização da onda T).

Mais do que casusa, de seguida enumeraremos algumas dos principais factores de agravamento e/ou associados a EV.

  1. Idiopático
  2. Demográficas:
    1. Idade avançada
    2. Sexo masculino
    3. Baixo estatuto socioeconómico
    4. Raça negra
    5. Pessoas altas
  3. Causas cardiovasculares:
    1. HTA
    2. Cardiopatia hipertrófica
    3. Cardiopatia dilatada
    4. Cardiopatias congénitas
    5. DCI
    6. Miocardite
    7. Cardiomiopatia arrtimogénica do ventrículo direito
    8. Taquicardia ventricular idiopática
    9. Patologia dos canais iónicos
  4. Condições não cardíacas
    1. DPOC
    2. Tabagismo
    3. Sedentarismo
    4. Anemia
    5. Hipóxia
    6. Hipertiroidismo
    7. Feocromocitoma
    8. Doença aguda (infecção, etc.)
    9. SAOS
    10. Hipertensão pulmonar
    11. Endocrinopatias
    12. Hiper/hipotiroidismo
    13. Patologia da supra-renal ou gónadas
    14. Nicotina
    15. Álcool
    16. Cafeína/teofilina
    17. Fármacos simpáticomiméticos (ex.: β-agonistas, descongestionantes, anti-histamínicos)
    18. Drogas (ex.: cocaína, anfetaminas)
    19. Fármacos que aumentem o intervalo QT ou repolarização (Ex: digoxina, antiarrítmicos)
    20. Distúrbios electrolíticos
    21. HipoK+
    22. HipoMg2+
    23. HiperCa2+
  1. Estudo Padrão
  2. ECG
  3. HOLTER
  4. Ecocardiograma
  5. Prova de esforço se suspeita de DCI ou sintomas (ex. palpitações) com esforço
  6. Ponderar outros MCDT, de acordo com suspeita clínica.